domingo, 24 de fevereiro de 2013

Quem Tem Medo de Assembleia? Parte II - A Unanimidade de Acabe



























“A verdade é exercício de poder. Quando você fala a verdade acaba sendo dominado por quem a conhece e é mais forte que você" (Nestor Távora - professor de Direito Processual Penal)

Introdução

Acabe era um mau rei ou era um rei mau? Longe de ser um mero jogo de palavras, a ordem em que o substantivo e adjetivo se apresentam na frase muda tudo. Se você afirmar que era um mau rei, estará dando ênfase a aspectos do seu reinado e o que ele fez enquanto governava. Já ao afirmar que ele era um rei mau, você estará destacando a sua personalidade, uma pessoa má que chegou ao poder. Na prática, essa diferenciação perde a importância porque a falha no caráter de um homem o persegue por toda a vida e quem é mau continuará praticando maldades até o dia em que haja nele uma verdadeira transformação ou até o dia em que o seu cálice de iniquidades transborde.

Acabe foi o sétimo rei de Israel, reinando por 22 anos (874-852 a.C.). A falha no seu caráter era a ausência de temor do Senhor que, acrescida da insegurança, o fazia se sentir perseguido pelos homens de Deus de sua época. Não tolerava ser contrariado, nem redarguido, nem questionado, nem repreendido. Era um homem perigoso que agora ocupava o mais alto cargo da nação de Israel. Poder limitado somente pela honra que demonstrava não possuir. Ele se sentia sozinho por não poder contar com Deus para apoiá-lo em seus atos infames. Por isso, ele elaborou uma técnica para se cercar de pessoas tão descompromissada com Deus quanto ele: a unanimidade de Acabe.

Unanimidade na liderança

Acabe nunca foi tolo a ponto de querer montar o governo de um homem só. Ele sabia que precisaria de aliados que legitimassem seu reinado e de súditos que cumprissem fielmente suas ordens sem questionar. Para isso, ele se uniu à ímpia Jezabel, mulher profana, que instigava o marido a combater os profetas do Senhor. Em 1 Reis 16: 30-33, Deus mostra como Acabe se tornou odioso para com Ele e como essa aliança infame com Jezabel irritou o Senhor e deu causa a pecados maiores – “E fez Acabe, filho de Onri, o que era mau aos olhos do Senhor, mais do que todos os que foram antes dele. E sucedeu que (como se fora pouco andar nos pecados de Jeroboão, filho de Nebate) ainda tomou por mulher a Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios; e foi e serviu a Baal, e o adorou. E levantou um altar a Baal, na casa de Baal que edificara em Samaria. Também Acabe fez um ídolo; de modo que Acabe fez muito mais para irritar ao Senhor Deus de Israel, do que todos os reis de Israel que foram antes dele.”

Unidos e unânimes, Acabe e Jezabel continuaram a cometer pecados gravíssimos. Um deles foi a ordem para matar todos os profetas do Senhor. A Bíblia registra que em meio a essa chacina, Obadias conseguiu salvar apenas cem profetas, escondendo-os em cavernas (1 Reis 18:4). O profeta Elias também conseguiu sobreviver.

Um outro pecado foi a cobiça de Acabe sobre a vinha de Nabot, o jizreelita, um terreno vizinho ao seu que queria transformar em horta. Altamente frustrado e angustiado diante da recusa de Nabot em vendê-lo, Acabe fez cena digna de criança mimada diante de sua mulher Jezabel que resolveu tomar suas dores. Ela escreveu cartas em nome de Acabe ordenando a prisão de Nabot sob a acusação de blasfêmia ao Deus de Israel e por afronta ao rei. Como se não bastasse, Nabot foi condenado a morte por apedrejamento sob o depoimento de duas falsas testemunhas pagas por Jezabel. Pela lei, o terreno passou a pertencer ao rei. Veja o relato em 1 Reis 21.

APLICAÇÕES

1. Não há limites para uma liderança unânime assim

Numa igreja, pastores e diáconos devem ambos serem pratos diversos de uma mesma balança. Pastor que reconhece suas falhas morais, insistindo em continuar no ministério, deve ao menos procurar compor uma liderança com homens de Deus que possuam, dentre tantas outras qualidades, as virtudes que lhe faltam. Triste vermos diáconos comprometidos com o seu pastor mais do que com Deus. Triste vermos diáconos acomodados diante dos pecados do seu líder. Triste vermos uma liderança em pavorosa ao menor sinal de beicinho do seu pastor. Triste vermos uma liderança que trata o seu pastor com excesso de benevolência diante de seus pecados e desmandos. Esse tipo de relação entre pastor e diáconos possui as mesmas característica do relacionamento entre Acabe e Jezabel, um casamento impuro, relação profana, que desagradou e afrontou a Deus, resultando em uma série de sofrimentos para os profetas do Senhor e que fez uma nação inteira se desviar dos caminhos do Senhor.

2. Não há temor do Senhor para uma liderança unânime assim

Acabe sabia de todos os pecados de sua esposa e a apoiava. O mesmo fazia Jezabel com os pecados de Acabe. O motivo de vermos um corpo de diáconos comprometidos com seu líder é que estes diáconos talvez não tenham aptidão moral para confrontar biblicamente seu pastor, pois este sabe exatamente o que se passa na vida de cada um deles. Não têm testemunho para dar fora da igreja, suas famílias estão passando por dificuldades, problemas com a esposa, problemas com os filhos, problemas com as finanças, problemas com o sono, problemas com o pecado, problemas com Deus... Mas dentro se apresentam como exemplos para o rebanho. Essa “boa reputação” devem ao seu pastor e seu pastor deve o mesmo a eles; é uma maneira de se protegerem. Acabe blinda e proteje Jezabel e Jezabel blinda, protege e realiza os desejos de Acabe, mesmo que seja matar o inocente Nabot. O temor do Senhor foi substituído pelo temor mútuo entre os membros desse tipo de liderança. Há o perigo de um deles falar demais. Por causa disso, esse grupo tem a característica de ser um grupo fechado, coeso, de difícil relacionamento com o restante do rebanho. Observe com quem seu pastor se reúne nos cultos de oração. Observe com quem seu pastor se reúne para conversar depois de um culto a noite. Ele já confidenciou um problema pessoal com você? Ele já te pediu para orarem juntos por alguma questão específica em sua vida? Cuidado com homens assim.

Quando surge uma rara ocasião de se ter que punir um dos membros desse grupo, aparece também o problema desse se revoltar contra os demais. Por isso surge também a possibilidade de agressões mútuas, física e verbal, após um culto de adoração a Deus.

3. Uma liderança que não teme ao Senhor não respeita os Seus profetas

Pessoas comprometidas com a Palavra de Deus sempre serão um sério empecilho para uma liderança sob a unanimidade de Acabe. Enquanto Acabe e Jezabel mataram e perseguiram os profetas do Senhor, pastores e líderes expulsam de suas igrejas pessoas que insistem em fazerem as coisas da maneira de Deus. Aqueles que persistem em ficar sofrem as mais duras penas e vêem aqueles, que antes eram irmãos, se transformarem em impiedosos carrascos.

Certa vez, ouvi um sermão de um desses pastores onde ele ilustrou sua mensagem falando da fé e convicção de uma família composta de um pai, uma mãe e dois filhos pequenos. A história se passava num desses países extremamente fechados ao Evangelho, acho que era Coreia do Norte. O que eu lembro bem era que toda a família foi condenada a morte por testemunhar a verdade do evangelho e, numa tentativa de negarem o nome de Jesus, os soldados cavaram quatro buracos onde cada um foi enterrado até a altura do pescoço pelos soldados. Cada um dos soldados jogou uma pá de terra sobre as cabeças daquelas pessoas. Todos morreram, mas permaneceram firmes mesmo diante de destino tão horrendo. Essa história foi contada com pesar, com uma voz embargada e semblante de profunda comoção. Uma cena que comoveu muitos ouvintes. Confesso que eu poderia até ter me comovido também, pois a história foi muito bem contada e representada no púlpito, mas no momento fui impedido por recordações desse mesmo pastor que, utilizando a mesma pá dos soldados norte-coreanos, “enterrou vivo” diversos irmãos e naquele momento mesmo, estava com terra sob as unhas pronto para “enterrar” mais uma família.

4. Uma liderança que impõe a unanimidade de Acabe pensa que ficará sem punição


“E direis: Assim diz o rei: Colocai este homem na casa do cárcere, e sustentai-o com o pão de angústia, e com água de amargura, até que eu venha em paz.” (1 Reis 22: 26-27). 


Micaías já havia predito a derrota da coligação formada pelos reinos de Judá e de Israel para as tropas sírias. Além disso, foi dada uma descrição da situação das tropas de Israel após o conflito: “Então disse ele: Vi a todo o Israel disperso pelos montes, como ovelhas que não tem pastor; e disse o Senhor: Estes não têm senhor; torne cada um em paz para sua casa.” (vers. 17). Mesmo assim, o rei Acabe  acreditava que voltaria em paz; pelo menos foi isso que ele disse em sua assembleia. Mas durante a batalha, Acabe lembrou-se das palavras de Micaías e tentou dar um jeitinho para que ela não se cumprisse. Disfarçou-se de soldado e entrou na peleja. A Palavra de Deus diz no vers. 34 que: “Então um homem armou o arco, e atirou a esmo, e feriu o rei de Israel por entre as fivelas e as couraças; então ele disse ao seu carreteiro: Dá volta, e tira-me do exército, porque estou gravemente ferido”

Pastores com a personalidade de Acabe também acham que o braço do Senhor não é grande o suficiente para os alcançar. Eles verdadeiramente acreditam que estão além da repreensão e que voltarão em paz depois de pelejarem contra o Senhor. Eles pregam, exortam, ensinam, disciplinam suas ovelhas e as expulsam de sua presença, mas a Palavra do Senhor ainda está a meio caminho dos seus corações. Não adianta disfarce; não adianta jeitinho para passar mais alguns anos em seus ministérios. O mesmo fogo que aceitou o sacrifício de Elias no monte Carmelo poderia muito bem ter consumido os profetas de Baal, ou, quem sabe, saraiva com fogo e enxofre, um poderoso raio ou algum outro sinal que manifestasse a ira do Senhor sobre esses homens. Mas, em vês disso, o Senhor age através de pequenas coisas para mostrar a insignificância do homem e a grandeza de Deus. Um graveto com ponta atirada ao nada atingiu Acabe bem na falha de sua armadura e foi o suficiente para por fim ao seu reinado. Quantas falhas temos nós, pecadores. O Senhor sabe exatamente onde estão.

Unanimidade na assembleia 


O texto que tomo por base é 1 Reis 22. Nele, os reis de Judá e de Israel resolveram se unir para guerrear contra o rei da Síria. Foi quando convocaram um culto profético a fim de consultarem a vontade do Senhor. Foram contados 400 profetas de Acabe que unânimes profetizavam a uma só voz que o Senhor daria vitória a Israel. Jeosafá achou estranho aquela unanimidade e perguntou se havia algum outro profeta em Israel. Acabe disse que havia um outro profeta chamado Micaías, filho de Inlá, mas esse constantemente o aborrecia porque não falava coisas agradáveis ao rei, somente pregava contra o rei. Mesmo assim, um dos servos do rei foi buscá-lo, mas Micaías foi advertido no caminho a falar como os demais profetas. Diferente dos demais, resolveu seguir o Senhor. Mesmo agredido por Zedequias, um dos falsos profetas, Micaías predisse a vitória da Síria e a morte de Acabe. Como retribuição por fazer a vontade do Senhor e por dizer a verdade, Micaías foi mandado para a prisão e sustentado com pão de angústia e água de amargura. Contudo, a Palavra de Deus pela boca do seu profeta se cumpriu.

APLICAÇÕES:

1. A unanimidade de Acabe desperta desconfiança em verdadeiros crentes



Jeosafá estranhou o fato de 400 pessoas falarem todas a mesma coisa e de estarem sempre concordando com o rei. Jeosafá era rei de Judá, a porção dos hebreus que permaneceu fiel ao Senhor e ao verdadeiro culto no Templo. A Bíblia o descreve como uma pessoa justa e temente a Deus, pois fazia o que era reto aos olhos do Senhor (1 Reis 22:43). Foi exatamente ele quem percebeu que havia algo de errado com aquela assembleia, e ninguém mais.

Quando a unanimidade de Acabe se instala numa igreja local, somente aqueles verdadeiramente comprometidos com Jesus possuem a sensibilidade espiritual para perceberem que algo de muito errado está acontecendo. Somente eles têm a coragem suficiente para pedir ao pastor que consulte o Senhor antes de uma decisão ser tomada ao invés de pedir a opinião dos sempre unanimes profetas de Acabe.

2. Na assembleia de Acabe não se encontra nenhum profeta do Senhor

Jeosafá conclui que naquela assembleia não havia nenhum profeta do Senhor. “Disse, porém, Jeosafá: Não há aqui ainda algum profeta do Senhor, ao qual possamos consultar?” (1 Reis 22: 7). Fico a imaginar o que Jeosafá pensava de toda aquela encenação. Acabe apresentou aquelas 400 pessoas como verdadeiros profetas de Deus, mas o se via eram 400 profetas de Acabe, sempre prontos a dizerem o que agrada ao rei, sempre prontos a apregoar vitórias, sempre prontos a dizer sim. O rei desafia; os seus profetas concordam sempre. Não há questionamentos, não há nenhuma palavra de prudência, nem mesmo um “e se...?”. Profetas de Acabe e profetas do pastor, não há diferença entre eles.

3. A unanimidade de Acabe apenas tolera em suas assembleias os servos dispostos a dizerem a verdade 

Acabe foi forçado a ter Micaías, filho de Inlá, profeta do Senhor, diante de si. Foi quando Acabe teve que reconhecer que havia um outro profeta, diferente dos demais. Quando foi convocado o ajuntamento, Micaías não foi chamado a sua presença porque não agravada ao rei. Suas palavras eram duras e o confrontavam com o pecado sempre que tinha uma oportunidade. “Eu o odeio” disse o rei (1 Reis 22:8). 
Na unanimidade de Acabe, só há espaço para aqueles que o agradam. Aqueles que ousam discordar e ser francos com o rei são apenas tolerados em suas assembleias solenes, e mesmo assim, por pouco tempo.

4. A unanimidade de Acabe produz pastores dissimulados

Acabe era dissimulado. Em 1 Reis 22:15-16, Micaías, de forma proposital e em tom de desdém, deixou transparecer que não falava com sinceridade, dizendo o que o rei queria ouvir. Foi então que o rei Acabe encenou uma profunda preocupação com a vontade do Senhor, insistindo com o profeta para que ele falasse somente a verdade. Numa igreja local, a unanimidade de Acabe também produz isso em seus pastores. O púlpito é um palco e a assembleia, um espetáculo circense com atores muito bem pagos, atuando para tentar convencer os menos atentos de que estão buscando a vontade de Deus, enquando o que importa mesmo é a sua própria e exclusiva vontade. 

5. A unanimidade de Acabe cega os pastores 

Acabe levava tudo para o lado pessoal. “Então o rei de Israel disse a Jeosafá: Não te disse eu, que nunca profetizará de mim o que é bom, senão só o que é mal?” (1 Reis 22:18). 

O rei Acabe só conseguia enxergar o problema sob o seu próprio ponto de vista, nunca sob a ótica de Deus. Micaías apenas estava sendo fiel ao Senhor. O verdadeiro problema que havia era entre Acabe e Deus. 

Pastores que se utilizam da unanimidade de Acabe para impor suas vontades, sofrem do mesmo mal. Eles só conseguem enxergar que há uma conspiração se formando, ameaçando o seu ministério. O seu pequeno feudo está sob ataque de ovelhas insurgentes que se levantam para tomar-lhe o poder. Não há ninguém bom e honesto o suficiente para dizer-lhe a verdade. O verdadeiro problema que há está entre esse pastor e Deus; entre ele e o seu orgulho; entre ele e sua mania de perseguição; entre ele e o seu pecado. O pão de Gideão ronda a sua tenda - quem lê entenda (Juízes 7:12-14).

6. A unanimidade de Acabe coloca um irmão contra o outro 

“Então disse o rei de Israel: Tomai a Micaías, e tornai a levá-lo a Amom, o governador da cidade e a Joás filho do rei. E direis: Assim diz o rei: Colocai este homem na casa do cárcere, e sustentai-o com o pão de angústia, e com água de amargura, até que eu venha em paz.” (1 Reis 22:26-27). 

Acabe retirou Micaías de sua presença, ordenando a sua prisão. Mas isso não era suficiente. Era preciso fazê-lo sofrer. Então ordenou que fosse mantido no cárcere com pão de angústia e água de amargura. Amom, seu servo, pessoalmente, foi encarregado disso. 

A unanimidade de Acabe faz isso numa igreja local. Pastores dão a sentença, mas os seus membros, entorpecidos por essa falsa doutrina, são eles que fazem o papel de Amom, o serviço sujo e pesado, infligindo a punição. Quantos irmãos tiveram que sair dessas igrejas diante de situações parecidas e que, mesmo agora, depois de terem sido retirados da presença do rei, são tratados como ex-irmão, ex-crente, ex-salvo, ex-sacerdote do Senhor, ex-habitação do Espírito Santo. Pão de angústia e água de amargura, ordenou Acabe. Gentios e publicanos, ordenam os pastores hoje.

Conclusão 

Assim como o filho copia o pai que tem, a igreja tem a cara do seu pastor que a lidera. O bom exemplo de Jeosafá deveria ser seguido pelas igrejas do Senhor nesses dias que antecedem ao arrebatamento. A Palavra de Deus revela que Jeosafá, rei de Judá, “andou em todos os caminhos de seu pai Asa, não se desviou deles, fazendo o que era reto aos olhos do Senhor” (1 Reis 22:43). Mas o que vemos é Acabe e Jezabel formarem uma aliança profana a ponto de fazerem desviar o povo da correta adoração a Deus, mantendo-o na idolatria ao deus Baal. 

A unanimidade de Acabe produz uma aliança de natureza perversa, profana e promíscua formada entre pastores egocêntricos e diáconos tolerantes, que se revela em algumas igrejas descompromissadas com o viver o Evangelho. Não havia ninguém capaz de impor limites para Acabe. O resultado foi que, aos olhos do Senhor (aos olhos do Senhor, não aos olhos dos homens) Acabe foi o pior rei que Israel já teve – “Porém ninguém fora como Acabe, que se vendera para fazer o que era mau aos olhos do Senhor; porque Jezabel, sua mulher, o incitava.” (1 Reis 21:25). Da mesma forma, pastores com a personalidade de Acabe não encontram limites para si. Conseguem até a unanimidade de corações e mentes de seu seguidores, mas o Senhor os reprovou – Deus não é unânime com o pecado. São maus aos olhos do Senhor porque Jezabel, seus companheiros de ministério, os incitam. Essa aliança rechaça para longe de si aqueles dispostos a confrontar seus erros, pois a unanimidade de Acabe deve ser mantida a todo custo.

Uma igreja sob a unanimidade de Acabe não precisa da atuação direta dos demônios. Os seus problemas são bem maiores. Micaías nunca foi inimigo de Acabe, assim como Davi não o era de Saul. Em 1 Samuel 26: 18, Davi brada a Saul, seu rei: “Por que persegue o meu senhor tanto o seu servo? Que fiz eu? E que maldade se acha nas minhas mãos?”. Mas a unanimidade de Acabe é mais perversa do que a legião inteira de demônios que atormentava a Saul, pois estes espíritos malignos permitiam, ao menos, intervalos de lucidez que faziam com que Saul recobrasse a razão: “Então disse Saul: Pequei; volta, meu filho Davi, porque não tornarei a fazer-te mal; porque foi hoje preciosa a minha vida aos teus olhos; eis que procedi loucamente, e errei grandissimamente.” (1 Samuel 26:21). 

Acabe morreu em batalha através de uma flecha atirada ao léu. Jezabel morreu pouco tempo depois. Quando o Senhor por fim ao ministério de tais homens, espera-se que Jezabel caia em seguida. O triste é que os problemas que eles causaram não são enterrados com os tais. Morre o rei, mas a nação fica. Assim, também, se vão os maus pastores e líderes (ou se preferir pastores e líderes maus), mas a nódoa que deixaram permanecerá impregnada na vida das ovelhas que continuarão compondo aquela igreja. Sobre essas ovelhas, que se comportam como o carrasco Amom, infligindo pão de angústia e água de amargura aos servos do Senhor, é que me debruçarei no terceiro e último post desta série: Quem Tem Medo de Assembléia? Parte III – Como recuperar a dignidade perdida. Se o Senhor Jesus me permitir. 

Que o Senhor fique conosco e nos dê a Sua paz.


Leia a Bíblia. Pense. Viva.
Fredson Andrade


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Mau Pastor





32 Omlas

1 O pastor é o meu senhor, de nada me acusará.

2 Deitar-me faz em seus grandes braços, guia-me os pensamentos para nunca o contrariar.

3 Atende minhas ambições por cargos e elogios públicos; diz-me exatamente o que fazer, por amor do seu ministério.

4 Ainda que eu caia em adultério e escândalos sem medidas, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; a tua mensagem e teus estudos me apoiam.

5 Preparas uma assembleia perante mim na presença de meus irmãos, unges a minha pessoa com um cargo eclesiástico, o meu ego se inflama e transborda.

6 Certamente que a cegueira e a depressão me seguirão todos os dias da minha vida; e estarei em  absoluta escravidão para todo o sempre. 

Leia a  Bíblia. Pense. Viva.
Fredson Andrade

sábado, 26 de janeiro de 2013

Pra não dizer que não falei das flores




A flor

O fruto à mão
Da boca ao chão
Semente agora despida
Antes em cachos, a pouco colhida.
Coberta estava do suco das uvas
Queria ser fermentada
Agora sozinha aguardava
O sonhado milagre da chuva.

Do chão a secura
E a vida se torna mais dura.
Pisada por muitos, esquecida por nós
Mas ouvindo de Deus a voz
Teima em viver e ser uma flor
Esperava encontrar o amor
Em seu lugar só espinhos,
Sabe que aguarda a dor.

A chuva encharca o chão
De repente surge um botão
Aguilhão de um lado, do outro espinho
A mais forte dor é estar sozinho
Como fazer diferença se não desabrolhar
Enquanto outros preferem calar
Mas a beleza da flor será um dia descrita
Com doces palavras e boa tinta.

Uma mulher passa olhando o chão
E mesmo ferindo a mão
Recolhe a flor e a leva ao coração.
Ouviram-se aplausos, deserto em festa
Mas que alegria era esta?
Eram as coisas voltando ao seu normal
A feiura dos cactos dominando a paisagem, afinal.

Mas o que o espinho não sabia
Aquela semente que nada valia
Agora em flor beleza irradia.
Enquanto suas irmãs viraram mosto
Ela aformoseia um rosto
E um sorriso, antes guardado, agora exposto.

Poetas dizem que a flor vence o canhão
Prefiro acreditar que amolece o coração
De pedra, diamante ou de safira
Mesmo que ao final do dia
Seque, murche e ninguém lembre jamais
Que por um breve momento existira.

Outros dizem que a flor silencia baionetas
Prefiro acreditar que muda carrancas e caretas
Para rostos amigos, de afáveis irmãos
Como diz a letra de uma velha canção
“Somos todos iguais, braços dados ou não”.

O que essa flor me fez perceber
Enquanto alguns pagam para ver
Outros param para ler
Importante mesmo é você crer
Se uma flor solitária incomoda o espinheiro
Imagine várias, o que farão por inteiro.



Leia a Bíblia. Pense. Viva.
Fredson Andrade

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Quem Tem Medo de Assembleia?



Introdução 

Esse é um tema amplo e que eu considero apaixonante. O motivo desse interesse é o mesmo que levou à Reforma Protestante do século  XVI: a liberdade do homem dizer o que pensa e de guiar-se somente pela Palavra de Deus, independente de hierarquia humana. Sola scriptura, diziam os reformadores. Lamento concluir, mas em nossos dias uma reforma parecida se faz necessária dentro de algumas igrejas, mas isso não acontecerá sem que, antes, reformemos o nosso coração e a nossa mente. 

Já ouvi pastores dizerem que o lugar mais perigoso para um não-convertido estar é dentro de uma igreja evangélica. Eles só não dizem que para o crente também o é. Não falo isso me referindo a todos os crentes, mas a uma categoria particular de verdadeiros convertidos que ainda choram diante dos pecados de seus líderes e das muitas dores que estes causam em suas igrejas, preferindo não fechar os olhos nem calar a boca quanto a isso. Também não me refiro a todas as igrejas, mas apenas àquelas administradas por líderes autoritários e arrogantes, que medem o “sucesso” de seus ministérios com números, estatísticas e metas, que não suportam críticas e se cercam de bajuladores encarregados de constantemente lhe massagearem o ego. 

Alguém tem que falar sobre esse assunto de forma aberta e clara. Peço a Deus para que eu não seja injusto em minhas colocações, nem que as minhas palavras sejam excessivamente pesadas, porque eu também tenho emoções, e pretendo retê-las para que o tema seja tratado de forma mais imparcial possível, enquanto minhas experiências pessoais insistem em marcar o seu lugar. 

O tema é vasto e há muito a ser escrito. Por isso o dividi em três partes. Na primeira, cujo título é Identificando os Medrosos, desafio o leitor a fazer um check-in de si mesmo e verificar se ele faz parte do rol daqueles que têm medo de Assembleia. Advirto que esse check-in é indicado apenas para que você aplique em si mesmo, apesar de reconhecer ser inevitável que você diagnostique outras pessoas pelo mesmo método. Neste último caso, os resultados podem não ser conclusivos. 

Numa segunda parte, pretendo colocar o leitor a par das estratégias utilizadas pelos líderes autoritários com o fim de implantar o terror em suas ovelhas e diminuírem o valor e a dignidade de uma Assembleia de Igreja Local. Acompanharemos todos os passos, do mais simples, onde ninguém percebe maldade, aos mais ousados, onde a vileza salta aos olhos de todos. 

Na terceira e última parte do tema, pretendo apresentar soluções para igrejas que estão indo a passos largos na direção do rebaixamento de suas Assembleias. Para algumas igrejas ainda há volta. Contudo, a minha preocupação maior será com os seus membros e procurarei mostrar uma forma de como recuperarem a dignidade perdida. 

Com a permissão de Deus, segue a primeira parte. 


Parte I - Identificando os medrosos 

“Em Deus tenho posto a minha confiança;
não temerei o que me possa fazer o homem."
(Sl. 56:11)

Todos nós tememos algo. Medo do escuro, de engordar, do dentista, da solidão, da doença, da morte, do homem mau. O medo abrange as mais diversas coisas e a sua intensidade vai depender do histórico de vida de cada indivíduo, podendo variar de uma mera ansiedade, que é um temor antecipado de se encontrar em uma situação ou com o objeto que lhe causa medo, a um pavor, que é o grau máximo do medo onde o funcionamento do corpo humano é abalado. Medo é a emoção que se caracteriza por uma angustiosa perturbação diante de uma situação de perigo ou ameaça, seja real ou imaginária, forçando-nos a uma adaptação rápida e eficaz com fins de sobrevivência, o instinto mais básico de todo ser. 

Instituições humanas também têm se valido do medo para sobreviverem. O que seria das empresas se os seus funcionários não tivessem medo do desemprego? O que seria do campeonato de futebol se os jogadores não tivessem medo de serem expulsos da partida? A punição que inflige o medo é algo salutar dentro de qualquer instituição quando aplicada dentro de parâmetro que respeitem a dignidade da pessoa humana. O próprio Estado se utiliza da sanção para conduzir seus cidadãos dentro de padrões de comportamento socialmente aceitos. Contudo, a dosimetria, o método, os meios e os fins devem ser observados e são balizas que não podem ser ignoradas jamais, sob pena de se instalar uma ditadura do medo, transformando aquilo que seria louvável e bom em algo intolerável e perverso, transformando aquilo que beneficiaria a muitos em algo que beneficia e protege os interesses de apenas um grupo, transformando aqueles que deveriam ser juízes das causas mais nobres em vis carrascos nos assuntos mais comezinhos, transformando colaboradores ativos e agentes de propagação de reinos em meros lacaios com mentalidade de súditos. 

Líderes religiosos também têm se valido do método mundano da imposição do medo em nome da sobrevivência. O detalhe diferenciador é que eles buscam a sobrevivência de si mesmos; a instituição e os membros vêm em último lugar, quando há algum lugar para estes. Mesmo que essa ordem fosse alterada, digamos, instituição-líder-membros ou membros-instituição-líder, nada justificaria impor o terror a uma congregação inteira. Atitude vil não se justifica por serem os objetivos nobres, assim como as trevas não se aliam com a luz. Contudo, para que tais líderes assegurem sua posição de donos do rebanho, eles precisam antes derrubar todos os obstáculos que o próprio Senhor Deus colocou em seus caminhos. São barreiras erguidas pelo Deus Triuno em defesa da Sua propriedade santa. Temo e tremo diante da seriedade de tal assunto porque estou escrevendo sobre aquilo que pertence ao meu Deus, aquilo pelo qual Ele enviou o Seu Filho para a morte: a Sua Igreja e Noiva. E se você, caro leitor, não estiver imbuído desse mesmo sentimento, peço encarecidamente que pare por aqui e faça a leitura do restante desse texto em outro momento. É passada a hora de deixarmos de sermos levianos com os assuntos do Rei. No entanto, se você estiver certo de que deve prosseguir, te convido aos próximos parágrafos. 

Por uma questão de padronização de termos, faço uma observação quanto à grafia. Quando eu citar a palavra Igreja com “I” estarei me referindo ao Corpo de Cristo formado pela reunião de todos os crentes remidos durante a dispensação da graça. Por outro lado, quando grafar igreja com “i” estarei me referindo à instituição igreja local composta de crentes reunidos em determinado lugar com o objetivo de prestar culto e com uma liderança humana, falível e pecadora. Tentarei seguir essa regra. 

Que barreiras Deus colocou para defender sua Igreja contra os maus líderes? 

Para chegar a essa resposta, antes se faz necessário entender o que alguns teólogos denominam de Pirâmide de Autoridade. Pirâmide de Autoridade é o escalonamento vertical e hierarquizado de todos os membros, ofícios e autoridades de uma igreja local autônoma. Observe a figura abaixo retirada do site de uma igreja conservadora:


                                     http://www.cristoevida.com/ibfcv.asp?url=igrejaOrganizacao


Por essa figura se observa que Cristo é o Cabeça e o fundamento da igreja e da Igreja. Logo abaixo está o ensinamento dos apóstolos e profetas que forma toda a base doutrinária e arcabouço teológico a ser defendido e ensinado. Seguindo, veremos a Assembleia da Igreja Local, órgão de cúpula para tomada de decisões e prestação de contas de todos, repito, todos os membros – liderança também faz parte da membresia pelo que sei. Abaixo da Assembleia estão os evangelistas e patores-mestres, responsáveis pela direção e cuidado do rebanho. Seguindo estão os diáconos e, por fim, a membresia. Os que estão acima exercem liderança sobre os que estão abaixo. 

E onde estão as tais barreiras que Deus colocou para impedir o avanço dos maus líderes? Observe novamente a figura acima e responda: quantos degraus faltam para esse pastor chegar ao topo? Esses degraus são os obstáculos que ainda restam. Destruindo a Assembleia Geral, nenhum obstáculo haverá mais entre este líder e a sã doutrina, passando ele a ditar as regras e a ter ampla liberdade para desvirtuar a Palavra de Deus, corromper a mensagem da salvação e os bons costumes, e utilizar o Evangelho em defesa de seus próprios interesses. Por fim, quando todas estas coisas acontecerem e essa pessoa tiver submetido a si tudo e todos, destronará o próprio Senhor Jesus Cristo dos corações de suas ovelhas e do comando da igreja, e tomará o seu lugar, assentando-se no topo da pirâmide. Algo parecido aconteceu com Lúcifer. “Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.” (Is. 14:12-13). Que Deus poupe a nós e nossas famílias desse dia. 

Ainda assim, para que esse triste cenário se concretize, é preciso antes que o último obstáculo humano estabelecido por Deus seja suplantado – a Assembleia de sua igreja. Por isso a sua atitude como membro durante as Assembleias é que dirá a direção e o ritmo com que essas coisas estarão acontecendo. O seu nível de comprometimento, de amor e zelo pela Igreja devem ser demonstrados inclusive nesse momento. Por isso, para o mau pastor é tão importante estabelecer uma atmosfera de medo na Assembleia, impedindo os crentes de se manifestarem livremente e dizerem o que pensam. Mas, como saber se você tem ou não medo de Assembleia? Resolvi te ajudar. Segue abaixo um questionário com perguntas que você deverá responder SIM ou NÃO. Leia e responda:


      1. Prefiro ficar em casa a ter que ir para uma Assembleia, e quando vou, desejo que tudo acabe
          logo. 

      2. Ao ouvir uma proposta eu torço para que não haja nenhum questionamento. 

      3. Acho que a minha opinião não tem o poder de influenciar o rumo das coisas. 

      4. Eu nunca fiz uma pergunta em Assembleia. 

      5. Já perguntei alguma vez, mas acho que teria sido melhor ter ficado calado. 

      6. Nunca expus de forma clara e cabal o que realmente penso sobre o assunto. 

      7. Prefiro me abster a ter que votar contra alguma proposta. 

      8. Prefiro que outros tomem a decisão por mim, afinal, quem sou eu para me opor a tantos. 

      9. Fulano é mais espiritual e sábio do que eu, portanto, se ele concordou, eu também concordo. 

      10. Sempre aprovo todas as propostas, mas quando termina a Assembleia murmuro pelos
            corredores da igreja e nas casas dos irmãos da decisão que eu mesmo tomei. 

      11. Tenho raiva daqueles que perguntam demais. 

      12. Tenho dó daqueles que um dia ousaram discordar e sofreram por isso. 

      13. Tenho medo do pastor de minha igreja e da maneira como ele franze a testa diante
            das perguntas. Lá vem pedra!

Agora, amigo leitor, é só você somar todas aquelas que você respondeu SIM. Se você obteve um resultado diferente de ZERO, pode concluir: você tem medo de Assembleia. Não pense que eu o critico por isso. Eu mesmo presenciei coisas indizíveis durante Assembleias a ponto de ver esposas, por medo, puxarem seus maridos pela manga da blusa forçando-os a sentarem e permanecerem calados. Medo! Emoção que nos faz agirmos de forma tola, às vezes. 

Defendo o respeito aos líderes das igrejas, mesmo os autoritários, mas defendo também que os seus pecados devem ser expostos e tais pessoas confrontadas com muito amor, doutrina e oração; o mesmo tratamento dado a qualquer pecador. Eles precisam também ser avaliados quanto ao medo de Assembleia. Para isso, há um método bastante simples que dispensa questionários e somatórios. Basta observar as atitudes que ele toma durante a Assembleia quando é arguido, tem suas pretensões ameaçadas e desejos contrariados. Pretendo tratar disso no próximo post. Por enquanto, basta saber que quando isso acontece, a reação do mau pastor é sempre desproporcional, irracional, colérica e nunca bíblica. Comporta-se como se estivesse em um ringue, batendo forte em homens feitos, mulheres e crianças. Não há limites para ele, desde que consiga levar o mais rápido possível seu “adversário” à lona. A diferença é que, enquanto “luta”, ele mesmo dita as regras, controla o relógio, bate o gongo, pontua os golpes, conta até dez e anuncia o vencedor. E quando ele termina, com as mãos ainda sujas de sangue, veste o jaleco branco e se impõe como o médico que tratará das feridas que ele mesmo causou. A sua vitória é certa e a torcida, grande. "Foi por causa dos pecados dos profetas, das maldades dos seus sacerdotes, que derramaram o sangue dos justos no meio dela." (Lamentações 4:13).

Para terminar, lembro-me de uma cena clássica de Hollywood. No filme Os Intocáveis (1987), dirigido por Brian De Palma, Al Capone (interpretado por Robert De Niro) está numa reunião com seus iguais. Ele fala da necessidade de um time estar bem entrosado, todos desempenhando muito bem o seu papel, com desenvoltura, agilidade e, o mais importante, sem embaraços. Um dos membros não estava tão bem alinhado com o grupo como os demais, causando prejuízos para a organização. Foi quando o chefe resolveu dar uma aula sobre unidade - ou terá sido unanimidade?



Capone, segurando um maciço taco de baseball, literalmente rachou o crânio daquele. O pânico toma conta de todos os presentes. Nenhuma palavra dita em defesa do pobre homem. Todos preocupados com suas próprias cabeças. Uma atitude, várias lições. A principal: vale tudo para sobreviver. Afinal, Al Capone também tinha medo de Assembleia.


Leia a Bíblia. Pense. Viva.
Fredson Andrade


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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Facebook, o bode expiatório da vez




“Assim aquele bode levará sobre si todas as iniquidades deles à terra solitária; e deixará o bode no deserto.” (Lv. 16:22)


Esse é o segundo post que escrevo sobre o assunto. No primeiro, chamei atenção para a atitude correta do crente em relação às redes sociais e demonstrei que a responsabilidade sobre o que se faz nos sites de relacionamento não é diferente de tudo o mais que fazemos na nossa caminhada cristã. Comer, beber, dormir são atividades tão essenciais na vida de qualquer um, como o se relacionar com outras pessoas. Peca quem dorme demais e se esquece das suas obrigações, assim também peca o glutão e o beberrão. E o que diremos às pessoas que assim procedem? Com toda certeza não vamos aconselhá-las a pararem de dormir, comer ou beber. O que diremos a um casal de namorados lascivos? Com certeza não diremos que o problema está no gosto pelo sexo oposto. O que você faz no seu casamento, no seu namoro, nas suas amizades, no seu trabalho, na sua escola, no seu computador é mero reflexo do nível de comunhão que você tem com Deus. Santifique a tua vida e verá que tudo que você fizer honrará ao Senhor. “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus.” (I Co. 10:31). Isso já foi tratado em post anterior. Se você não o leu, sugiro que o faça. 

Neste post, dou um enfoque diferente sobre esse tema. Pretendo lançar luzes em uma área que quase nunca se aponta a Palavra de Deus para sua direção: os pecados e erros administrativos de uma congregação e a tentativa de expiá-los apresentando soluções pragmáticas. Para alguns, é cômodo que continue assim, enquanto a maioria sofre com as consequências.

A tentativa de se retirar a culpa sobre si, e colocá-la sobre os outros é tão velho quanto o próprio pecado. Em Gênesis vemos Adão tentando se eximir da culpa colocando-a em Deus e em sua mulher, e Eva fazendo o mesmo culpando a Serpente que é Satanás (Gn. 3:8-13).

Atitudes assim também fazem parte do dia a dia de nossas igrejas. Lamentável ver pastores em seus púlpitos pregarem lindos sermões sobre a necessidade de se humilhar, reconhecer culpa, fraquezas e pedir perdão sempre, e nunca vê-los fazer isso; nunca. Muitos anos de ministério a frente de uma mesma igreja e nenhum pedido de perdão ao longo dos anos. Em vez disso, as atenções sempre estão voltadas para fora do seu ministério. Uma vez, ouvi um deles repreendendo os membros de sua igreja por estarem assistindo pregações de outros pastores, de outras igrejas, pela internet, o que estava causando questionamentos do seu ministério, tirando a paz de sua igreja. A causa dos problemas de dentro está lá fora, sempre lá fora. Não é à toa que não me espanta o fato de que, com a mesma rapidez com que surgem os escândalos dentro das igrejas, surgem também os bodes expiatórios.



Desde a época do Antigo Testamento, o ritual mais importante para o povo judeu é o dia do Yon Kippur (dia do perdão), onde dois bodes eram preparados e levados ao Templo perante o Senhor e, mediante sorteio, um seria queimado sobre o altar do sacrifício e o outro se tornaria o bode emissário (expiatório) que seria deixado com vida e enviado para o deserto. Encontramos esse preceito em Levítico 16:7-8, 21-22: “Também tomará ambos os bodes, e os porá perante o SENHOR, à porta da tenda da congregação. E Arão lançará sortes sobre os dois bodes; uma pelo SENHOR, e a outra pelo bode emissário... E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á ao deserto, pela mão de um homem designado para isso. Assim aquele bode levará sobre si todas as iniquidades deles à terra solitária; e deixará o bode no deserto”. O foco da cerimônia era o arrependimento do homem e a misericórdia de Deus em perdoá-lo. Depois diz em Levítico 23:29 “Porque toda a alma, que naquele mesmo dia se não afligir, será extirpada do seu povo.” A palavra afligir significa humilhar. Por isso o perdão deve ser precedido de aflição, humilhação. E só haverá humilhação com reconhecimento de culpa. Esse reconhecimento de culpa deve ser completo, cabal, ou seja, deve abranger todos os envolvidos na questão. Se o teu pecado não ofendeu nenhuma outra pessoa, quer crente ou descrente, humilha-te diante de Deus e pede perdão a Ele somente. Mas, se o teu pecado é público, neste caso, a humilhação e o perdão devem também ser públicos. “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós... Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.” (I Jo. 1:8,10). Quanto maior a posição que se exerce na liderança de uma igreja, maior será a necessidade de se observar esse princípio.

A disposição de reconhecer pecados e erros administrativos dentro das igrejas é algo que está ficando cada vez mais raro. Certa vez, numa longa conversa com um pastor, expus a ele pontos que precisavam ser corrigidos em seu ministério e, com a intenção de ajudá-lo, dei alguns conselhos. Ele, com muito desdém, escreveu tudo que eu dizia numa agenda. Quando conclui, olhou para os diáconos que estavam a sua volta, fechou a agenda, empurrou-a para longe de si e começou a sua defesa com a seguinte pergunta: “Onde você estava no dia do meu aniversário?” Meu queixo caiu até a altura dos joelhos! Custei a entender onde ele queria chegar com essa pergunta, mas depois de mais duas ou três, compreendi: ele estava reivindicando honras para si, e aquela minha atitude de procurá-lo, questioná-lo, o desonrava tanto quanto a ausência de alguém a sua festa de aniversário (nada mais infantil). No meio da conversa, muito nervoso, por uma das janelas de seu gabinete, apontou para o grande portão que dava para a rua e pediu para eu pegar minha família e procurar outra igreja. Pessoas assim, nunca estão dispostas a olharem para dentro. “Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as fornicações, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem.” (Mc. 7:21-23).

Igrejas com boas Confissões de Fé e sólida base doutrinária naufragam tristemente nesse aspecto. Erguem fortes muros em defesa do evangelho e em suas igrejas colocam atalaias em altas torres e arqueiros em posição de guarda sobre as muralhas. Transformam seus membros num verdadeiro exército bem armado e combativo, pronto para rechaçar o inimigo quando ele bater às portas com suas hostes. Esquecem que fortalezas podem ser tomadas sem um único tiro de arco. Basta o inimigo montar cerco e esperar que os próprios moradores destruam a si mesmos. Esse é um dos modos que Deus tem utilizado para disciplinar Seu povo - “E sitiar-te-á em todas as tuas portas, até que venham a cair os teus altos e fortes muros, em que confiavas em toda a tua terra; e te sitiará em todas as tuas portas, em toda a tua terra que te tem dado o Senhor teu Deus. E comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas, que te der o Senhor teu Deus, no cerco e no aperto com que os teus inimigos te apertarão.” (Dt. 28:52,53). Com a Massada não foi diferente. Sabendo dessa estratégia, as tropas romanas montaram cerco sobre Massada, um palácio construído por Herodes, o Grande, símbolo do seu orgulho e grandeza, tido por alguns como inexpugnável, cujo fim foi o suicídio em massa de seus moradores. A palavra disciplina transmite a ideia de consequência; consequência de uma atitude anterior reprovável aos olhos de Deus. E essa atitude digna de repreensão é a mesma desde sempre e nunca mudará: “... porquanto não destes ouvidos à voz do Senhor teu Deus.” (Dt. 28:62, 2ª parte). De fora vêm as consequências, mas dentro está o mal.

Fico pensando na ira que levou Jesus a expulsar os mercadores do Templo de Jerusalém e penso que o que falta aos membros de hoje é um pouco dessa ira e zelo santos pelas coisas de Deus. Combater os erros de dentro de sua igreja não é, e nunca foi, uma tarefa fácil, assim como não foi para os profetas levantados por Deus para repreender a nação de Israel nos dias que antecederam ao juízo. Não há honra, nem glória, nem louros para os que se encorajam nessa missão. Esse nunca será bem quisto entre os seus irmãos e sempre terá consigo, à espreita, pessoas esperando que seus pés resvalem. “E tendo feito um azorrague de cordéis, lançou todos fora do templo, também os bois e ovelhas; e espalhou o dinheiro dos cambiadores, e derribou as mesas; E disse aos que vendiam pombos: Tirai daqui estes, e não façais da casa de meu Pai casa de venda. E os seus discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devorou. (Jo. 2:15-17).

Causa-me imensa tristeza e indignação (por que não?), o fato de pastores darem ouvidos a pesquisas realizadas na Universidade de Chicago, distante mais de 7.000 Km de suas igrejas, e acharem o resultado muito interessante, divulgando isso em seus informativos, enquanto se recusam a realizar pesquisas de opinião no seu próprio rebanho; enquanto não querem ouvir os balidos de suas próprias ovelhas. A cada mês, ao celebrarmos a Ceia do Senhor, os membros são convidados a examinarem a si mesmos, perscrutarem seus atos, comparando suas atitudes com a Palavra de Deus, buscando uma correção de vida, mas nunca soube de um pastor que utilizasse sequer o tempo de uma escola dominical para ter uma conversa franca e desarmada com seus membros sobre os rumos que sua igreja está tomando ou o modo de realizarem seus projetos e planos, muito menos perguntarem opiniões sobre seu próprio ministério.

Por isso, quando casos de homossexualismo surgem nas igrejas, a fragilidade de seu ministério e a administração falha não podem ser expostas. Melhor é condenar aquilo que está em voga, na moda, em pleno uso e popularidade, seja o televisor da tua sala, a Malhação e novela das oito na Globo ou o Facebook de Mark Zuckerberg. Para tudo isso, há um grande número de pesquisas para embasar posições que vão de um extremo ao outro; condenando ou apoiando, é só escolher em que lado se quer estar e os interesses que se quer defender e, sem muito esforço, a pesquisa aparecerá para apoiá-lo. Enquanto isso, a opinião dos membros de sua igreja não é citada em nenhuma pesquisa. Diálogo franco e aberto com a membresia, não se quer. Nenhuma crítica equilibrada e embasada é publicada em seus jornaizinhos. O pastor conduz o rebanho e o rebanho segue o pastor. Essa é a ordem natural das coisas, e é assim que deve continuar sendo nas igrejas porque essa é a vontade de Deus. Mas isso não significa que o pastor, se valendo da posição que Deus o colocou, não deva olhar para o rebanho e nem perceber em suas ovelhas sinais de fraqueza, de doenças e de exaustão espiritual. Somente um pastor que ama o rebanho que lhe foi confiado suspende a marcha e cuida das ovelhas cansadas e feridas. Por outro lado, o mau pastor as abandona pelo caminho porque estas, se continuarem, atrapalharão a caminhada para o próximo pasto.

Logo depois da conquista de Jericó, quando Israel tentava tomar a pequena cidade de Ai, o coração do povo se derreteu porque perdera aquela importante batalha e o exército do Senhor bateu em retirada diante de seus inimigos. Josué, então, se prostrou com o seu rosto em terra e diante da arca do Senhor, dirigiu lamentações a Deus e O culpou por ter abandonado o seu povo em batalha. Foi quando Deus mandou Josué se levantar, deixar de reclamar e procurar resolver a questão do pecado que estava escondido dentro do próprio arraial, no interior de suas tendas. “Então Josué rasgou as suas vestes, e se prostrou em terra sobre o seu rosto perante a arca do Senhor até à tarde, ele e os anciãos de Israel; e deitaram pó sobre as suas cabeças. E disse Josué: Ah! Senhor Deus! Por que, com efeito, fizeste passar a este povo o Jordão, para nos entregares nas mãos dos amorreus para nos fazerem perecer? Antes nos tivéssemos contentado em ficar além do Jordão! Ah, Senhor! Que direi? Pois Israel virou as costas diante dos inimigos! Ouvindo isto, os cananeus, e todos os moradores da terra, nos cercarão e desarraigarão o nosso nome da terra; e então que farás ao teu grande nome? Então disse o Senhor a Josué: Levanta-te; por que estás prostrado assim sobre o teu rosto? Israel pecou, e transgrediram a minha aliança que lhes tinha ordenado, e tomaram do anátema, e furtaram, e mentiram, e debaixo da sua bagagem o puseram. Por isso os filhos de Israel não puderam subsistir perante os seus inimigos; viraram as costas diante dos seus inimigos; porquanto estão amaldiçoados; não serei mais convosco, se não desarraigardes o anátema do meio de vós.” (Js. 7:6-12). 

Quando surgem os escândalos em nossas igrejas, é o momento de procurarmos o anátema escondido em nossas tendas, porque ele está lá, em algum lugar. Não dá para escondê-lo de Deus. Igrejas que jogam sujeira para debaixo do tapete, segredam pecados e os trata de forma diferente a depender de quem os pratica, devem cavar fundo, bem mais fundo ainda, porque o anátema estará lá com certeza. Quem terá coragem e disposição para tanto? É hora das igrejas pararem de criar bodes expiatórios e colocarem neles toda a culpa de seus próprios desmantelos, desmandos, negligências e pecados. Temo não haver tantos bodes assim. 

Leia a Bíblia. Pense. Viva.

Fredson Andrade, 
um servo que ama a Igreja do Senhor Jesus Cristo, 
mas se indigna diante do pecado que a acomete.


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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Texto Proibido de A. W. Tozer



Um bom modo de evitar a armadilha da atividade religiosa vazia é comparecer diante de Deus, sempre que possível, com nossa Bíblia aberta em I Coríntios 13.” (A. W. Tozer) 

Todo crente que gosta de leituras edificantes, com certeza, já se deparou com algum dos escritos de Aiden Wilson Tozer (1897 - 1963). Exemplo de ministério frutífero na pregação, no pastoreio e na produção literária, escrevendo mais de 40 livros, ele mesmo sintetizou seu ministério com a seguinte frase: “Penso que minha filosofia seja esta: tudo está errado até que Deus endireite”. E nessa urgência de que as coisas se amoldassem ao padrão estabelecido por Deus, seus escritos despertam o leitor para ver o mundo, as coisas e os acontecimentos que nos cercam, com os olhos de Deus, nos chamando para um relacionamento mais profundo com o Criador. 

Seus escritos abordam diversas áreas da vida cristã, apontando erros que crentes e igrejas de hoje preferem ignorar. Sem nenhuma formação teológica formal, não passou por seminários, mas, munido apenas pela Palavra de Deus e na dependência do Espírito Santo, se opôs ao mundo que teima em se associar com os santos e aos santos que teimam em se associar com o mundo. Por isso, Tozer ainda incomoda. 

Com muita facilidade você encontrará nos informativos de sua igreja textos que exortam o crente a ter uma vida de retidão, de serviço, de mordomia, de amor, de oração, de santidade e submissão. Tudo isso é bíblico e deve ser observado porque Deus assim o quer. Difícil é encontrar publicado nas igrejas textos que exortem a própria liderança a se comportar de forma igualmente bíblica. A razão disso está ligada à vaidade de muitos líderes e a uma autoimagem criada, ao longo dos anos, imune a críticas, por vezes construídas a custa de muitas famílias e bons servos de Cristo forçados a saírem para outros apriscos. Nos últimos dias, isso está ficando cada vez mais comum dentro de igrejas que se dizem conservadoras, fundamentalistas ou qualquer outro adjetivo que tenham atribuído a si. 

Se seus líderes têm esse perfil, segue abaixo um texto de A. W. Tozer que muito dificilmente você lerá no jornalzinho de sua igreja. Depois de lê-lo, sugiro que dobre os joelhos e ore por sua liderança. 

Que Deus tenha misericórdia desses homens, de suas igrejas e de seus rebanhos. 

Leia a Bíblia. Pense. Viva.
Fredson Andrade 



Quanto a Receber Admoestação

Uma breve e singular passagem do Livro do Eclesiastes fala de um "rei velho e insensato, que já não se deixa admoestar". 

Não é difícil entender por que um rei idoso, especialmente se fosse estulto, acharia que estava acima de toda admoestação. Depois de ter dado ordens durante anos, facilmente poderia construir uma psicologia autoconfiante que simplesmente não poderia agasalhar a noção de que deveria receber conselho de outrem. Por muito tempo a sua palavra fora lei, e, para ele, certo se tornara sinônimo da sua vontade e errado viera a significar tudo que contrariasse os seus desejos. Logo, a idéia de que houvesse alguém bastante sábio ou bas­tante bom para repreendê-lo não chegaria a entrar em sua mente. Se fosse um rei insensato, deixar-se-ia apanhar nesse tipo de rede, e se fosse um rei velho, daria à rede tempo suficiente para o prender tão fortemente que ele não poderia rompê-la, e tempo suficiente para acostumar-se tanto a ela que não mais estaria ciente da sua existência. 

Independentemente do processo moral pelo qual chegou à sua condição empedernida, o sino já dobrara para ele. Em todas as par­ticularidades era um homem perdido. Seu ressequido e velho corpo ainda podia aguentar-se para provê-lo de um túmulo móvel para abrigar uma alma já morta. A esperança partira, havia muito tempo. Deus o deixara entregue ao seu próprio convencimento fatal. E logo morreria fisicamente, também, e morreria como morre um tolo. 

Um estado de ânimo que rejeita a admoestação caracterizou Is­rael em vários períodos da sua história, e estes períodos foram seguidos invariavelmente pelo julgamento. Quando Cristo veio para os judeus, achou-os transbordantes daquela arrogante autoconfiança que não se dispõe a aceitar repreensão. "Somos somente de Abraão", disseram friamente quando Ele lhes falou dos pecados deles e da sua necessidade de salvação. As pessoas comuns O ouviam e se ar­rependiam, mas os sacerdotes tinham mantido o domínio tempo de­mais para se disporem a renunciar à sua posição privilegiada. Como o velho rei, tinham-se acostumado a estar certos o tempo todo. Repreende-los era insultá-los. Estavam acima da censura. 

As igrejas e as organizações cristãs têm mostrado uma tendên­cia para cair no mesmo erro que destruiu Israel: incapacidade para receber admoestação. Depois de um período de crescimento e de labor vitorioso vem a mortal psicologia da autogratulação. O próprio sucesso torna-se a causa do fracasso posterior. Os líderes passam a aceitar-se como os escolhidos de Deus. São objetos especiais do favor divino; o sucesso deles é prova suficiente de que é assim. Portanto, eles têm que estar certos, e quem quer que tente chamá-los a contas é imediatamente proscrito como um intrometido desauto­rizado que devia se vergonha de ousar censurar os que são melhores do que ele. 

Se alguém imagina que estamos meramente jogando com as pa­lavras, que aborde ao acaso algum líder religioso e chame a atenção dele para as fraquezas e pecados presentes em sua organização. Com toda a certeza, o tal topará com bruscas negativas e, se se atrever a persistir, será confrontado com relatórios e estatísticas para provar que está absolutamente errado e completamente fora de ordem. "So­mos a semente de Abraão" será a carga da defesa. E quem ousaria achar falta na semente de Abraão? 

Os que já entraram no estado em que não podem mais receber admoestação, não é provável que tirem proveito desta advertência. Depois que um homem caiu no precipício não há muito que você possa fazer por ele; mas podemos colocar sinais ao longo do caminho para impedir que o próprio viajante caia. Eis alguns: 

1. Não defenda a sua igreja ou a sua organização contra a crítica. Se a crítica é falsa, não pode causar dano. Se é verdadeira, você tem que ouvi-la e fazer alguma coisa a respeito dela. 

2. Preocupe-se, não com o que você tem realizado, mas com o que poderia ter realizado se seguisse o Senhor completamente. É melhor dizer (e sentir): "Somos servos inúteis, porque fizemos ape­nas o que devíamos fazer." 

3. Quando censurado, não preste atenção na fonte. Não inda­gue se é um amigo ou um inimigo que o repreende. Frequentemente um inimigo é-lhe de maior valia do que um amigo, porque aquele não é influenciado pela simpatia. 

4. Mantenha o coração aberto para a correção dada pelo Se­nhor e esteja preparado para receber dEle o castigo, sem se preocupar com quem segura o açoite. Os grandes santos aprenderam todos a levar surra com classe — e esta pode ser uma razão por que foram grandes santos. 


Tozer, A. W. O Melhor de A. W. Tozer. Seleção predileta dos livros de um profeta de hoje. Vol. 7 – Série A.W. Tozer, 1ª edição. 1984. Ed. Mundo Cristão, p.107.


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